Se alguém me perguntasse de que matéria é feito O sapato do meu Tio, não saberia responder. Os sapatos são feitos geralmente de couro de um animal, antes esticado e posto no curtume, para o nosso conforto. Mas este espetáculo fala de pedras que ficam no sapato, incomodando. A fome, a convivência, o domínio da técnica, a recepção do público, a luta pela sobrevivência, a vontade de se superar e superar o outro, uma carroça, um par de sapatos, um palhaço e seu sobrinho-ajudante-querendo-também-ser-palhaço, o mestre-aprendiz e o aprendiz-mestre. Esses são alguns dos ingredientes de uma fábula sobre a transitoriedade da vida.
“E o palhaço, o que é?” Só sei que o palhaço não é só o que veste uma roupa colorida, calça um par de sapatos grandes, usa um nariz vermelho e faz palhaçada para as crianças. O palhaço é também um ser humano que se revela apesar do disfarce, que emociona porque chora e ri de verdade, embora estampe em seu rosto o sorriso e a lágrima maquiados, para pessoas de todas as idades.
O palhaço também é posto no curtume. O palhaço também tem suas pedras. O que se aprende? O que se ensina? Valeu a pena? E a nossa vida, como vivemos? A verdade do palhaço pode levar o público do riso às lágrimas. O palhaço também encanta, emociona, com seu riso, com seu choro, com sua tristeza e com sua alegria. E tudo cabe nessa carroça, de passagem, como a vida.
João Lima e Alex Simões
Trata-se de uma homenagem ao ofício de palhaço calcada em alguns de seus maiores expoentes. Embora a peça narre a história de dois artistas mambembes, vivendo situação específica, o seu significado pode ir além, por falar de transitoriedade da vida, da solidariedade, do respeito mútuo e do aprendizado e crescimento do ser.